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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Cidades Rebeldes


Ao abrir o envelope, percebeu a carta pretensiosa de Miguel Ruiz endereçada ao Ministro da Justiça. Solicitava ele ao digníssimo, como bom contribuinte, o comando da Força Nacional durante sete dias para derrubar o poder. Ao receber a óbvia resposta do não, Miguel - perseverante em suas convicções - pôs-se a recrutar nas ruas de sua cidade o povo. Diante de argumentos tão convincentes, o povo convencido e indignado, resolveu comparecer ao seu apelo no dia e  hora marcados.  Foi no exato dia em que aquele político que não acreditava em Deus foi á igreja. Temia Ele ser castrado em sua dignidade.

Miguel, feliz com aquela demonstração de tamanha força, contemplava do alto de um muro a multidão. Em seu pensamento, via a força que o povo tem para encurralar seus algozes.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Contramão


Contramão
(Gleison Gomes)

Qual o tamanho do medo da vida?
Todos lhe apontavam um caminho pra seguir. Não quis.
Contra a corrente pensante, dominante, preferiu seguir seus próprios passos. Em cada esquina cruzada, andante, lhe perguntavam qual era a loucura desta vez.
 – Pra onde vai errante?
Ia ele em busca da vida abundante. Diferente.
Nadando contra a maré, não se importava com o contra curso do rio que seguia. Percebia um ar de inveja das pessoas. Olhava em seus olhos e via o medo que tinham de mudar. Obstante, não se importou com a situação. Vivia o que sentia em seu coração. Como um peixe exausto seguiu o seu destino.
No fim da sua jornada, olhou pra trás e viu o tanto que havia andado por seu próprio caminho. Já se distanciava e, por conseguinte, não conseguia enxergar os que antes lhe apontavam o outro caminho. Apreciava a situação, a natureza e toda a imensidão do céu azul. O sol irradiante brilhava mais do que costumeiramente podia brilhar. Era o regogizo que precisava.
Um velho sábio que por ali habitava se aproximou e singelamente lhe perguntou:
– Quem és tu garoto? Não teves medo de não conseguir chegar?
– Quanto mais forem difíceis os caminhos é que percebo que devo insistir com meus passos. Sou aquele que tem outros sonhos. Sonhos estranhos. Se medo me der é que resolvo andar.
– E porque?
– Quanto maior o cansaço destes caminhos, maior é o encontro que tenho com Deus.
Ninguém nesta hora já se atrevia a falar mais nada. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ausência


I

Volta e meia se encontrava conversando com sua intuição. Pensava ele nas pessoas ausentes que haviam partido e dos conselhos que estas lhe dariam em certas ocasiões.
– Se acalme grande homem, só me retirei por alguns instantes desta vida. É necessário que continues a tua caminhada.  
Foi assim que imaginou através destas poucas palavras o seu velho avô lhe dizendo com fé e ternura algo que o confortasse naquele momento.
– Saia e fortaleças o teu espírito com a vida. Olhe para o mundo e aprenda mais sobre as coisas e as transforme conforme o teu bom coração deseja.
Não havia ninguém melhor para aprender sobre o ato de viver. Por anos aprendeu a fazer as coisas pela ação do que acreditava. Em seu coração movia um pensamento solidário pelos seus semelhantes. Procurava ajudar a quem quer que seja sem desejar nada em troca. Ansioso, inquieto e calado buscava transcender o mundo em que vivia. Pensou profundamente nas constantes conversas que travava com seu avô e antes de sair lembrou:
­ – Somente vá e encontre a porta para a tenra felicidade.
Saindo, partiu para aprender com a vida.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Esquecimento

(Gleison Gomes)
Foi um dia qualquer. Levantou-se da cama cheio de vida. Respirando fundo e demonstrando uma disposição raramente visto nas pessoas, saiu do quarto, passou pelo banheiro a se arrumar e caminhou para a cozinha. Deu um beijo em sua mãe e pôs-se a comer uma bela fatia de bolo com café.
De longe ouviu o canto dos pássaros que passavam por ali toda manhã. Saiu pela área e lembrou das plantas que cercavam aquela casa. Viu naquele mesmo instante a oportunidade que há muito tempo não costumava fazer: molhar as plantas. Lembrou das Samambaias, da Jibóia, das Sete Ervas, do Amor Perfeito e de outras tantas plantas que não prestava mais sua contemplação. De longe, um olhar encabulado de sua mãe a observar.
Pegou sua bicicleta e saiu pela rua a pedalar. Tinha em mente visitar as pessoas que conhecia. Primeiramente foi até a casa da Raimunda para saber notícias. Lá, olhou o pé de manga que tantas vezes tinha subido quando criança. A horta estava verde, bonita como sempre.
Sobre uma velha mesa de madeira, ao lado da dona Fia e da Mundinha, soou uma conversa boa, que há muito tempo não tinha com aquelas idosas. Coisas lá do Norte. Lembranças da carne seca, do cuscuz com leite de coco, da tapioca com manteiga do sertão, da música de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Jackson do Pandeiro. Quantas coisas, pensava ele, deixara de viver.
 De longe viu chegando o seu Leônidas trazendo em suas mãos um pedaço de queijo coalho que havia trazido de uma recente viagem que fez a Mossoró.  Ficou sabendo por meio dele das tias que se retiraram para aqueles lados. Conceição e Dona Isabel haviam se habituado bem por lá. Não pensavam mais em voltar a não ser por passeio. Mandaram-lhe um cartão com a foto de Padre Cicero Romão, desejando a todos nós muita saúde e Deus no coração. Deu vontade de chorar. Quantas saudades despertou. Jogou mais uns minutinhos de conversa fora e naquele momento se despediu do povo seguindo seu caminho. Ainda haveria um grande dia a aproveitar.
Pedalando pelas ruas tranqüilas daquele bairro, avistou na rua São Sebastião um grande amigo. Parou e se abraçando ao velho amigo Waltinho, despertou em sua mente novas lembranças da infância. Era uma época em que os dois colecionavam discos de vinil. Passavam horas e horas da semana garimpando discos raros pelos sebos da cidade. Boas lembranças que acabaram levando-o para a casa do Waltinho, na hora do almoço.
Chegando, ligaram o velho Gradiente e puseram-se a ouvir um clássico do Raulzito. A música era Ouro de Tolo.
“Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...”
Sentiu graça ao ouvir esta música, pois incomodava-lhe algo que havia esquecido. Deixou pra lá, não fez questão de lembrar. Seguiu para a mesa onde a comadre Ilda servia o almoço. Sentiu o gostinho caseiro da comida que não comia há tempos por causa da rotina. Era um bife acebolado com um arrozinho branco e um feijãozinho de caldo grosso. Mais simples, impossível. Era tudo que desejava. Juntos, ali na mesa, lembraram causos e histórias da escola, da rua, das menininhas que conquistavam com suas conversas e do trabalho que davam a dona Ilda quando garotos. Todos riam lembrando de tantas coisas que se passaram pela vida. A tarde foi curta pra colocar tanta conversa em dia e para ouvir tantos outros discos raros que haviam por ali. Mas ele tinha que ir embora. Mais uma vez se despediu do amigo prometendo voltar outro dia. Saiu com sua bicicleta.
Subindo ás ruas, ouviu seu telefone tocar. Era Amora o seu grande amor. Trocaram conversas e resolveram se encontrar perto da faculdade onde estudavam para ver o por do sol. Lá era o lugar perfeito para contemplar tamanha grandeza da natureza.
Chegou ao lugar, deixou sua bicicleta de lado e abraçando Amora, sentou no chão batido de terra e de grama rala. Dizia do maravilhoso dia que havia tido. Falou das suas lembranças da infância, do encontro com os amigos, do sentimento que sentiu e do mágico momento que ali estava ao lado dela. Lembrava de muitas coisas que havia feito pela vida. Porém, havia um incômodo esquecimento em sua cabeça. Não se lembrava do que era. Nem tão pouco fazia questão de esforçar-se para lembrar.
Ficou ali com ela no silêncio. Abraçados, contemplaram o sol se pôr no horizonte, levando o dia. Aquele lindo e belo dia em que se lembrava de tudo, menos que teria que trabalhar.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Água de Beber

(Gleison Gomes)

Foi na construção de Brasília.
Era comum semanalmente aparecer entre aquelas vastas avenidas de terra, sempre alguma personalidade testemunhando este grande feito. Artistas, políticos, curiosos e empresários passavam muitas vezes por aquele empoeirado chão do cerrado goiano para ver tamanha ousadia. O que se via era trabalhadores oriundos de várias partes do país, labutando seu suor naquilo que seria o maior reduto da política brasileira.
Numa destas viagens, dois grandes compositores da época, resolveram á convite do arquiteto da obra, espiar de perto o sonho daquilo que diziam impossível. Da capital, voaram rumo ao planalto central aterrisando num campo de pouso improvisado. Numa velha camionete entre as árvores retorcidas, saíram pelas ruas a conhecer as obras durante toda aquela tarde.
Suas constantes conversas com o povo, entrosando ladainhas e lorotas ao fim do dia, lhe renderam um razoável conhecimento sobre as obras em construção. Foi numa destas conversas que ao avistarem uma bica jorrando água perguntaram:
– O que é aquilo?
Olhando para trás, para onde o poeta apontava o dedo, um trabalhador nordestino replicou:
– Aquilo? Aquilo é água de beber camarada.
Estas célebres palavras nunca mais sairiam de suas mentes.
Ao trabalhador, sem saber quem eram aqueles homens, jamais imaginou que aquelas simples palavras se eternizariam como um canto poético pelo mundo inteiro.
E assim se sucedeu...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AposTa


(Gleison Gomes)
Era seu costume semanalmente jogar na loteria. Por tempos construíra em seu pensamento um forte pressentimento de ser contemplado com um prêmio que mudaria definitivamente a sua vida. Simplesmente acreditava ser possível.
Na primeira semana daquele mês de março acumulou um considerável prêmio na Mega Sena. Era a sua oportunidade. Juntou os bilhetes que costumava jogar toda semana e pôs-se mais uma vez a repetir os números que rotineiramente jogava durante décadas. Nunca havia acertado mais que três números num mesmo bilhete durante todos estes anos.
Um dia pela madrugada, sonhou algo estranho do habitual. Imaginava-se dentro de um poço de bosta se afundando. Tentava de todas as formas procurar sair, mas não conseguia. Foi uma coisa tão forte que acordou assustado. Suado, sentindo frio, ficou a beira da cama procurando entender o sonho. Nada conseguiu.
Na manhã seguinte, meio preocupado, saiu a caminhar para o trabalho. Em frente ao bar da esquina, encontrou o senhor Candido, um exímio conhecedor de sonhos e simpatias. Era um velho amigo que não via há tempos. Angustiado, pôs-se a desabafar com o amigo. O senhor Candido logo não hesitou em lhe dizer:
– Isso é dinheiro! E olha que não é pouco não. Pra mim, bosta não tem outra relação que não seja com dinheiro meu amigo.
Repentinamente ficou perplexo. Do semblante sério e preocupado, surpreso, ficou alegre. Nestes poucos segundos fez uma breve relação do sonho com a aposta na loteria. Viajou longe em seus pensamentos. Saiu do bar agradecendo ao amigo e pôs-se a sonhar com aquilo que nunca pode ter em sua vida.
Por si só tudo era amargo. Saía cedo de casa para trabalhar numa construção como auxiliar de pedreiro, aonde chegava muitas vezes reclamando de dor nas costas, tamanho era o trabalho forçado que fazia. Parecia tudo aquilo, em muitas ocasiões, um poço de bosta na qual ficara atolado sem ter como sair. Era assim que via em sua aposta a esperança de mudar de vida.
Chegava o dia do sorteio. Ansioso, nem dormiu direito durante a noite. Saiu depressa pela manhã até à loteria para conferir o bilhete. Seus costumeiros números eram sempre o seis, o catorze, o vinte oito, o trinta e três, o trinta e cinco e o quarenta e sete. Feliz, viu coincidir o número seis. Depois, veio catorze e logo o vinte oito. Inexplicavelmente entusiasmado, mal esperava o que ainda viria.
Os últimos três números para seu azar, nada coincidiram com os sorteados. Frustrado, mais uma vez o que conseguiu foi somente acertar a metade do jogo. Seus sonhos de uma vez se desmoronaram. Nada levou da sua aposta. Mais uma vez, por mais de uma década, continuaria ele ainda no meio da bosta.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Contos Curtos



Doce de Nerópolis
(Gleison Gomes)

Conhecido era pelo nome Maisena. Negro, magro e de média estatura, trabalhava para um velho numa Kombi antiga vendendo doces pela rua. Fazia-se de motorista e ao mesmo tempo vendedor. Andava sozinho pelas ruas anunciando pelo alto falante as ofertas do dia. Parava aqui e dali, sempre atendendo as donas de casas a quem vendia aqueles doces. Agradava a todas com sua conversa e simpatia.
Um dia, indo por um caminho pouco comum no bairro, perto de uma mata, encontrou por acaso uma antiga amiga do colégio. Era uma jovem rechonchudinha, bem dotada de corpo e pernas a quem logo despertou sua atenção. Seu papo afiado e sua conversa envolvente, logo fizeram daquele momento muito mais do que uma simples venda.  Convidou-a para entrar na Kombi e partiram para um passeio naquele finalzinho de tarde de um dia da semana.
Andando pela rua, desviaram para um lugar sem saída, de pouco acesso nos arredores da mata. De longe observava-se os dois em completa harmonia, feito queijo e doce. Pararam a Kombi e logo não demorou muito para que eles passassem para a parte de trás do veículo. Arrumaram um espaço no meio de tanta mercadoria e ali mesmo ensaiaram umas cenas picantes de dar inveja a qualquer filme adulto. Vez ou outra dava para ouvir pelos alto falantes uns estranhos gemidos muito distante de quaisquer anúncios publicitários. Não se importavam com isso. Para eles haviam um momento único naquele lugar, que os levaram a lembrar os bons tempos do colégio em Nerópolis.
Chegada à noite, Maisena tinha que acertar o dia. Despediu-se e saiu sorridente para a casa do velho. Chegou com uma expressão de felicidade que levava a entender que tinha sido o melhor dia nas vendas. Final das contas faturara pouco mais de oito reais pelo dia inteiro. Surpreso pela felicidade e com o pouco rendimento o velho ficou sem entender nada.
 Para Maisena já não importava o dinheiro. Em sua mente permanecia o bom gosto e as picantes lembranças do seu rechonchudinho e farto doce de Nerópolis.

Para o amigo Edilson.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Contos Urbanos II

Pizzaria
(Gleison Gomes)

Não tinha grandes atrativos físicos em seu corpo. Calvo, baixo, olhar de coitado, fazia-se um bom orador na hora da enrolação. Ao seu lado, uma loira, magra, alta e com cara de poucos amigos. Tudo ia bem pela pizzaria.
De repente, outra loira.
– Oi meu amor, não sabia que tava mantendo dois relacionamentos?
– Você ta me seguindo?
– Não! Só estou visitando a pizzaria que você sempre me costumava trazer.
– A gente é casado?
– Não meu amor, só não precisa desligar o telefone, pois pra mim as coisas estão indo muito bem.
E antes de ir embora:
– Ah! Vê se não demora pra gozar viu, ela pode não gostar. Tchau amor!
Depois disso naquela mesa, somente a pizza havia sobrado. Totalmente  inalterada.

(Ocorrido pelos bares da vida...)

Contos Urbanos I

Pregações
(Gleison Gomes)

Era uma distribuidora de bebidas comum senão fosse Eva, moradora da casa ao lado. Seu defeito? Tinha um péssimo hábito de pregar aos berros pelo menos três vezes por semana durante a tarde. Era um modo que encontrava de ser ouvida pelos etílicos de plantão. Abria o seu livro e punha-se ao microfone a gritar.
Perambulavam por ali boêmios, mendigos e trabalhadores em busca de uma boa conversa. Já estavam tão acostumados com o berreiro que nem ligavam mais.
Havia por lá um senhor idoso, morador de rua, conhecido por Zé Cachaça. Volta e meia aparecia no lugar sem dinheiro pra variar. Sempre ia ao encontro de algum “gente boa” que lhe pagasse uma dosinha. Em algumas ocasiões conseguia, em outras, era expulso por tanto aborrecer o dono do estabelecimento.
Certa vez o dono ficou sabendo que Eva estaria se mudando de lugar. Ficou tão contente que até deu de graça uma dose a Zé Cachaça. O problema era que Eva não tinha ninguém que a seguisse. Decepcionada, decidiu buscar novos rumos por outras bandas.
Um dia Zé Cachaça resolveu atentar o dono da distribuidora. Pelejou tanto por uma dose de cachaça, que acabou por levar umas vassouradas pelo corpo. O dono revoltado, dizia ser Zé o próximo encosto a sair de sua vida.
Mas naquela tarde, o Zé deu de se vingar.
Era a ultima vez que Eva falaria ao microfone pra alegria do dono. Até tinha um povo que ficou atento praquela ultima aparição. Quando a gritaria começou, Zé Cachaça saiu dum monturo de lixo com os braços abertos gritando aleluia. Meio desengonçado, falava em alta voz pra todo mundo ouvir:
 – Deus há de me guiar, que pra este lixo num volto mais.
Imediatamente Eva se aproximou de Zé Cachaça, colocando suas mãos sobre a cabeça do coitado, ungiu suas ultimas palavras àquele homem:
– Eita que eu ia embora, mas daqui não saio mais.

E assim continuou... Por muito tempo desta forma, morando na casa ao lado.


(Para o etílico amigo Paulão)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Contos Urbanos

Olá a todos amigos e amigas,

Em breve compartilharei neste blog uma série de contos que venho juntando. Um deles, "Debutantes" estará disponível a partir de 15 de Fevereiro  para leitura de vocês. Espero que gostem e postem suas críticas e elogios.

Abraços a todos e todas!
Gleison Gomes